Archive for the ‘Literatura’ Category

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Audrey Hepburn, Rabindranath Tagore – Loucuras de um Brainstorm pela madrugada

maio 31, 2010

Postado por Rodolfo.

Estava a assistir um programa na TV fechada de madrugada quando vejo um cara caminhando, todo pimpão, num programa Y no Discovery Travel, em que ele estava em Londres, andando em direção ao Piccadily Circus. E não é que ele estava falando sobre a Audrey Hepburn?

Mudo de canal, e deparo-me, acho que no History Channel, com um programa sobre poetas indianos, e de quem estão falando? Rabinadrath Tagore! Não conhecia este sujeito até ter ganhado um livro dele em meu aniversário ano passado!

A união entre a precisão das letras e a subjetividade da física: Rabindranath Tagore e Albert Einstein.

E pensei, madrugada, Hepburn, Tagore… eles devem ter alguma ligação. E não é que tinham? Um poema, Unending Love. Justamente o poema predileto de Audrey. Não sei se você já leu alguma coisa do Tagore, só digo que vale muito a pena.

Unending Love

I seem to have loved you in numberless forms, numberless times…
In life after life, in age after age, forever.
My spellbound heart has made and remade the necklace of songs,
That you take as a gift, wear round your neck in your many forms,
In life after life, in age after age, forever.

Whenever I hear old chronicles of love, it’s age old pain,
It’s ancient tale of being apart or together.
As I stare on and on into the past, in the end you emerge,
Clad in the light of a pole-star, piercing the darkness of time.
You become an image of what is remembered forever.

You and I have floated here on the stream that brings from the fount.
At the heart of time, love of one for another.
We have played along side millions of lovers,
Shared in the same shy sweetness of meeting,
the distressful tears of farewell,
Old love but in shapes that renew and renew forever.

Today it is heaped at your feet, it has found its end in you
The love of all man’s days both past and forever:
Universal joy, universal sorrow, universal life.
The memories of all loves merging with this one love of ours –
And the songs of every poet past and forever.

Só uma coisa lhe digo: foram loucuras de um brainstorm pela madrugada.

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Excerto Literário – “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

abril 7, 2010

Brás Cubas, o mais famoso defunto escritor de toda a literatura.

Postado por Rodolfo.

“…Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.

Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto: — Gatuno, sim, senhor; não é outra coisa um filho que me faz isto…

Sacou da algibeira os meus títulos de dívida, já resgatados por ele, e sacudiu-mos na cara. — Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.

Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada opus à ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a idéia de levar Marcela comigo. Fui ter com ela; expus-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.

— Por que não?

— Não posso, disse ela com ar dolente; não posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre pai, morto por Napoleão…

— Qual deles: o hortelão ou o advogado?

Marcela franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lho a mucama, numa salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-lhe o líquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora.

Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a estrangular; de a humilhar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos pés dela, contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as mãos; ofegante desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse…”

Trecho do Capítulo XVII – “Do trapézio e outras coisas” – de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do genial Machado de Assis, disponível gratuitamente, para leitura, download, etc, em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000167.pdf 

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Excerto Literário – “O Tempo e o Vento – O Continente – Tomo 1”

março 9, 2010

postado por Rodolfo.

"Uma geração vai, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos." - Eclesiastes 1,4-6

“A todas essas São Pedro do Rio Grande vivia abandonado e esquecido pela metrópole. Não lhe davam estradas nem pontes nem policiamento nem nada. Justiça? Ha-ha! Todos os processos tinham de ser julgados pela Relação do Rio de Janeiro, para onde eram remetidos e onde ficavam a criar cabelos brancos.

Parecia que a Corte achava que os continentinos só serviam para brigar com os castelhanos, porque quando rebentava a guerra começavam logo o recrutamento e as requisições.

Terminada a luta, cessavam de pagar o soldo às tropas e esqueciam-se de resgatar as requisições. E pouco se lhes dava que a guerra tivesse dizimado os rebanhos e destruído as lavouras do Continente.

– E onde é que eles metem o dinheiro do imposto? – perguntou um dos homens que escutavam Juvenal.

– Metem no rabo desses caramurus do inferno! – respondeu, azedo, um velhote de chiripá seboso.

Os outros o miraram de soslaio sem dizer nada.

– Com tudo isso que pagamos – disse Chico Pinto – não temos nem escolas pros nossos filhos.

O velhote cuspinhou para o lado e retrucou:

– Qual escola, qual nada! Não preciso dessas coisas. Não sei ler e isso nunca me fez falta. Também não tenho filho pra mandar pr’escola. Mas me dá raiva de ver que estamos sustentando
o luxo da Corte. O nosso dinheirinho é pra encher a barriga desses condes, duques e barões de meia-pataca!

Naquele mesmo dia, Juvenal transmitiu ao pai essas notícias inquietadoras. Pedro Terra ficou por algum tempo calado, e quando todos pensavam que ele as tinha esquecido, ouviram-no dizer:
– Já mataram o trigo, agora vão matar o resto. São pior que gafanhoto, pior que ferrugem.

– Quem, Pedro? – perguntou-lhe a mulher.

– Esses malditos caramurus.”

Capítulo XXIV, página 200, da obra prima do gaúcho Érico Veríssimo “O Tempo e o Vento”, do primeiro livro da trilogia, “O Continente – Tomo 1”, mas especificadamente da parte 2, ou “Um Certo Capitão Rodrigo” – Editora Globo, Edição X (livro gentilmente cedido por alguma boa alma no 4Shared, grazie!).

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Excerto Literário – “O Pequeno Príncipe”

fevereiro 27, 2010

Postado por Rodolfo.

E, deitado na relva, ele chorou.

“Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na direção dos homens.

– Bom dia, disse ele.

Era um jardim cheio de rosas.

– Bom dia, disseram as rosas.

O principezinho contemplou-as. Eram todas iguais à sua flor.

– Quem sois? perguntou ele estupefato.
– Somos rosas, disseram as rosas.
– Ah! exclamou o principezinho…

E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!

“Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto… Começaria a tossir, fingiria morrer, para escapar do ridículo. E eu então teria que fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela era bem capaz de morrer de verdade…”

Depois, refletiu ainda: “Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande…” E, deitado na relva, ele chorou.”

Capítulo 20, páginas 64-65 de “O Pequeno Príncipe”, do aviador Antoine de Saint-Exupéry, Editora Agir, 47ª edição.