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Especial Oscar 2011 – Toy Story 3

fevereiro 14, 2011

Toy Story 3 vem para fechar um ciclo que acompanhou o crescimento de muita gente. E pra fazer muito marmanjo chorar pelos seus brinquedos de infância… 😦

por Ricardo Amarante


Crítica: Toy Story 3

Existem dois estúdios no mundo que podem ser classificados como fábricas de obras-primas. Um deles, o Estúdio Ghibli, está no Japão, tendo como principal figura o gênio Hayao Miyazaki, chamado constantemente de Walt Disney japonês. Ele não é nenhum Walt Disney japonês, ele é muito mais do que isso. É simplesmente o diretor mais criativo em atividade, juntamente com David Lynch. Relacionada a Walt Disney, no ocidente, se encontra a outra fábrica, a Pixar. Após a morte do pai de Mickey Mouse, as animações do estúdio ficaram, quase sempre, à sombra das grandes obras de seu fundador. Logicamente, grandes filmes foram feitos, como A Bela e a Fera (The Beauty and the Beast, 1991) e O Rei Leão (The Lion King, 1994). Mas foi somente em 1995, com o lançamento do primeiro Toy Story, que algo verdadeiramente único apareceu. A Pixar, que já havia realizado brilhantes curta-metragens, desenvolveu projetos que simplesmente garantiram a sobrevivência dos estúdios Disney. O tempo foi passando, grandes filmes animados foram sendo feitos, a animação em computadores foi se sobrepondo à animação tradicional (coisa que Miyazaki e seus discípulos nunca abandonarão) e a Disney comprou a Pixar, incorporando-a definitivamente. Após essa compra, duas obras-primas foram lançadas, Wall-e (2008), que é com certeza um dos melhores filmes dessa última década, e Up – Altas Aventuras (2009). E, em 2010, com o lançamento de Toy Story 3, presenciamos o fechamento de um ciclo. Um ciclo de pioneirismo, de criatividade e de maturidade atingida. Tudo isso sintetizado na história dos dois amigos (e ex-rivais) Woody e Buzz, que são dois brinquedos falantes.

No primeiro filme, acompanhamos a formação da amizade de Woody e Buzz, dois brinquedos que representam elementos opostos. Enquanto Woody (voz de Tom Hanks) é o caubói, o brinquedo à moda antiga, Buzz Lightyear (Tim Allen) é um astronauta, cheio de recursos. Um representa o tradicionalismo dos brinquedos artesanais, e outro, a tecnologia das diversões modernas. Não é ir muito longe comparar as duas personagens com os caminhos seguidos pelo cinema de animação. A animação tradicional se viu ameaçada de desaparecimento com a chegada da digital, e é essa a sensação inicial de Woody em relação a Buzz. O caubói teme que seu dono, o menino Andy, o esqueça, preterindo-o a favor do outro brinquedo, mais moderno e cheio de apetrechos. Enquanto rivais, os dois não realizam nada, só semeiam intrigas e desgostos entre seus companheiros. No momento em que se unem, descobrem a possibilidade de serem grandes amigos, realizando grandes feitos. Da mesma forma, a animação moderna não irá a lugar nenhum se desprezar a influência e os ensinamentos legados pelos clássicos do cinema do gênero. Esquecendo dessa alma, e de que a história é a base de um bom filme, ficamos com obras frias e sem-graça como Robôs (Robots, 2005) e o primeiro Era do Gelo (Ice Age, 2002).

Em 1999, foi lançado Toy Story 2, no qual Woody se viu vítima de um ganancioso colecionador. O filme, bem superior ao primeiro, introduziu um novo tema: a possibilidade dos brinquedos se tornarem relíquias, peças de museu, perdendo todo o encantamento que possuíam ao fazerem parte das brincadeiras de seus donos. E é essa questão que explode com maestria no terceiro filme. O menino Andy deixou de ser uma criança, atingiu o momento da vida em que vai sair de casa para se dirigir à universidade. Esse é um ponto de sua existência em que os brinquedos são apenas recordações do que um dia foi sua infância. São o recheio de algum baú, o enfeite de alguma estante, e não mais peças fundamentais de sua diversão e do seu cotidiano. É impossível ao espectador não relacionar esse sentimento com a sua própria vida, principalmente se esse espectador tiver crescido assistindo aos filmes da trilogia. A mãe de Andy, portanto, pede ao filho que escolha o que fazer com seus brinquedos. Há várias opções, como guardá-los no sótão ou doá-los a um orfanato. Após alguns desentendimentos, os brinquedos acabam parando, por engano, no tal orfanato, onde, magoados pelo abandono de Andy, são recepcionados pelos habitantes do local. O aparentemente amigável ursinho-cor-rosa-com-cheirinho-de-morango Lotso (voz de Ned Beatty), uma espécie de governante do local, promete maravilhas aos recém-chegados. Woody, acreditando que Andy não os abandonou, deixa o local, enquanto Buzz e os outros se sentem esperançosos com a perspectiva de se tornarem a diversão de novas crianças. A ilusão dura pouco, quando se deparam com verdadeiros demônios em forma de infantes, que os desmembram, maltratam, numa verdadeira sessão de tortura diária. E Lotso começa a revelar suas tendências autoritárias, mantendo os brinquedos sob vigilância. Na viagem de retorno à casa de Andy, Woody acaba por descobrir a verdade sobre a história do ursinho rosado. Com o coração despedaçado por um incidente do passado, Lotso descarrega suas mágoas sendo um ditador para os outros brinquedos. De posse dessa informação, o caubói organiza um plano de fuga para libertar seus amigos. Nessa aventura, se misturam cenas hilárias, principalmente as protagonizadas pelo Sr. Cabeça de Batata e por Ken (o namorado da Barbie), com outras cheias de suspense e assustadoras, como a tortura de Buzz.

Ao final, tem-se a sensação de que uma época está chegando ao fim. É o final da primeira história contada em um longa-metragem pela Pixar. É o final da infância. O final de um momento da vida, enfim. E, ao mesmo tempo, é uma continuidade do que importa. A continuidade da amizade e da memória que obtemos dessa parte da vida que já se foi. E também é um sinal de que a Pixar continuará realizando alguns dos filmes mais adoráveis e emocionantes do cinema atual. Em 1995, talvez ninguém imaginasse que a história de Woody e Buzz fosse se tornar uma das metáforas mais bem desenhadas sobre a transição, sobre a chegada da maturidade e sobre os sentimentos que carregamos conosco. Sentimentos esses que se originam na infância, e que continuam em nossas mentalidades por toda a vida, mistura de memória com escolhas. Decisões que dizem respeito ao que escolhemos seguir, ao que precisamos deixar para trás para continuarmos. Talvez nem seja deixar para trás, mas passar adiante, entregar esses momentos a quem deve vive-los, a quem passa pelo momento de vive-los. Tudo isso está sintetizado na sequência final, uma das mais belas e emocionantes da história do cinema, e posso dizer isso sem medo. A pergunta é: como o pessoal da Pixar consegue ser tão bom? Como conseguem contar essas histórias tão bem, nos comover tanto? É possível que Toy Story 3, pesando todas suas qualidades, seja o melhor filme do ano passado. E, com isso em mente, surgem mais perguntas: qual a razão do filme não receber mais prêmios, mas sim ser incluído no nicho de “Filme de Animação”? A indicação ao Oscar de Melhor Filme ocorreu, mas ninguém cogita a possibilidade de vitória. Afinal, por que não premiar um filme sobre brinquedos que falam, ao invés de outro sobre um rei que não consegue falar?

Indicações ao Oscar 2011:

Melhor Filme

Melhor Roteiro Adaptado

Melhor Filme de Animação

Melhor Canção Original (We belong together)

Melhor Edição de Som


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