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Especial Oscar – Cisne Negro

fevereiro 12, 2011


E abrindo o Especial Oscar 2011, um filme de um dos melhores diretores da atualidade com a musa do Porca Pipa em uma de suas melhores atuações!

Leandro Samora


Crítica: Cisne Negro

Uma das vantagens do balé sobre o cinema é que no teatro, ao fim da apresentação, você pode se levantar e aplaudir sem problemas. Na sala de cinema isso pega um pouco mal – principalmente se você for o único aplaudindo – e foi só pela vergonha que eu fiquei quieto ao final de Cisne Negro (Black Swan, 2010). Mas por dentro, minha cabeça estava a mil.

Isso parece ser uma constante no cinema do diretor Darren Aronofsky. Seus filmes não são rapidamente digeridos. Eles ficam dias e dias rondando sua cabeça, incomodando, surpreendendo. Ele é o tipo de diretor que faz você sentir vontade de ficar algum tempo sem ver outro filme após assistir uma obra sua, para não “contaminar” suas impressões sobre o que acabou de se ver.

Cisne Negro gira em torno da história do balé O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. No drama, a Rainha Cisne é uma donzela apaixonada sob um feitiço que a transforma na ave branca durante o dia. Somente o amor de seu escolhido a libertaria da maldição, mas a moça é trapaceada por sua “gêmea má”, o Cisne Negro e não encontra outra saída senão a morte. O francês Vincent Cassel interpreta o coreógrafo que pretende uma adaptação “mais viceral” da peça com sua companhia. Para essa nova versão, pretende escalar uma única bailarina para interpretar ambos os cisnes, o branco e o negro. Em outras palavras, alguém capaz de incorporar o bem e o mal com a mesma graciosidade e perfeição.

A “princesinha” da vez é a bailarina Nina (Natalie Portman, com o papel que muito possivelmente irá lhe render seu primeiro Oscar). Nina é a artista quase ideal: perfeita na versão bondosa, mas falta-lhe energia para encarnar a maldade. Pressionada pelo coreógrafo, que é uma espécie de arquétipo literário da entidade que corrompe o herói – como por exemplo Lord Wotton no Retrato de Dorian Grey – Nina passa a ficar obcecada pela personagem. A garota virginal procura então meios de deixar sua pureza de lado e trazer à tona o aspecto mais carregado que traz preso em seu íntimo para ver aflorar então as escuras asas do Cisne Negro. O que acontece a partir daí é uma viagem psicológica que faz confundir realidade e fantasia.

As oposições e o senso de dualidade dão o tom do filme. Nina precisa deixar de lado a vida de excessiva proteção e projeções empenhada pela mãe, uma bailarina frustrada, como a única maneira de se alcançar a perfeição para o novo papel. A batalha interna da personagem, seus dois lados duelando a todo instante, se exterioriza no filme através de elementos visuais: a oposição nas cores das roupas de Nina e sua nêmesis, a decoração da casa do coreógrafo, opondo branco e preto, luzes e sombras (com direito até a quadro com teste de Rorschach). Conforme a bailarina vai se afundando em sua obsessão, seus delírios vão tomando forma e são essas cenas que tornam Cisne Negro mais rico. Aronofsky não lança mão de recursos muito originais para mostrar esses momentos, mas o cineasta faz isso com tanta sutileza quanto os movimentos de braços de Natalie Portman, que aprendeu a dançar especialmente para o filme. Rostos nas sombras, fotografias e tatuagens que se mexem em movimentos suaves, reflexos sutis… em muitos momentos o espectador compartilha da dúvida da protagonista e não é capaz de dizer se realmente viu algo ou se apenas imaginou.

Entretanto o elemento chave que Aronofsky utiliza é o jogo com os espelhos. Há toda uma função prática e também simbólica com os objetos no filme, presentes em todas as sequências. Além de ser figura comum ao universo de treinos e ensaios do balé, o espelho também traz a idéia da dualidade, do jogo entre o real e a representação. Então a todo momento se vê ele lá, ajudando o diretor a preencher os espaços numa cena, dando profundidade ou ajudando na ilusão do jogo de imagens. Também está lá na cena em que se vê a personagem de Mila Kunis saindo do corpo de Natalie Portman e dando a dúvida da presença das duas na mesma sequência ou definindo o final da história.

Cisne Negro é um filme fantástico, que instiga o espectador e inunda a sala com cenas muito bem coreografadas, a trilha clássica do balé criando a atmosfera de mistério. Cria confusão, gera dúvidas, dá nó na cabeça, encanta com a atuação e a evolução de Natalie Portman, que domina quase todo o tempo de tela. E quanto ao diretor Darren Aronofsky, a única coisa que você consegue pensar ao final do filme é “E não é que esse filho da p*#$ conseguiu de novo??”.

 

PS: Ah, Xexéo… vai ser jurado da dança do Faustão, vai…

Indicações ao Oscar 2011:

Melhor Filme

Melhor Diretor (Darren Aronofsky)

Melhor Atriz (Natalie Portman – Nina Sayers)

Melhor Fotografia

Melhor Edição

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