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Especial Oscar – A Origem

fevereiro 12, 2011

A realização do sonho {sonho.[sonho.(sonho)]}de Christopher Nolan ganha as telas do cinema!

por Ricardo Amarante


Todo sonho é uma realização de desejo, segundo Freud. O sonhar realiza uma atividade paralela, e, ao mesmo tempo, influente na vida desperta. Os desejos presentes nos sonhos passam por instâncias como a censura e a transformação em símbolo para que surjam diante dos nossos olhos adormecidos. São elaborações complexas, cujo fio condutor é dificilmente encontrado. Dotadas de diversos níveis, ambientes que substituem um ao outro sem nenhum movimento lógico, a arquitetura do sonhar foi desbravada por grandes pensadores. Cineastas como Fellini e David Lynch possuem uma atração quase magnética pelos ambientes oníricos, e a representam como poucos. Mas todos esses intérpretes dos sonhos, de certa forma, prestam tributo à teoria freudiana da realização do desejo. E, nesse sentido, pode-se contar Christopher Nolan entre as fileiras dos freudianos, mesmo que ele não saiba disso. A Origem (Inception) é um sonho. Não é apenas um filme sobre sonhos, o filme é um sonho. Porque todo seu processo de composição, escrita do roteiro, criação dos visuais e dos efeitos, tomou cerca de dez anos. E o lançamento do filme, em 2010, representa a realização do desejo, a realização de um projeto extremamente ambicioso e ousado.

A base para a história do filme é até simples, e linear. Lembra aqueles filmes antigos de golpes, ou de fugas da prisão, como Fugindo do Inferno (The Great Scape, 1963), com Steve McQueen. Uma equipe é reunida, para realizar determinada tarefa. Cada personagem possui seu papel, indispensável para o cumprimento da missão. O objetivo aqui é a invasão dos sonhos. Don Cobb (Leonard DiCaprio, numa de suas melhores atuações) possui a habilidade, e a tecnologia, de penetrar no subconsciente alheio e extrair os segredos escondidos nela. Porém, após uma missão fracassada, o ladrão dos sonhos e sua equipe são pressionados a embarcar em uma nova experiência. Ao invés de extrair uma ideia, eles devem implantá-la (daí o título original, Inception). Em troca desse feito, Cobb poderá se encontrar com seus filhos novamente, algo que não ocorre desde a morte de sua mulher (a maravilhosa atriz francesa Marion Cotillard). A imagem de sua falecida esposa é uma constante nos sonhos do próprio Cobb, o que acaba por dificultar seu trabalho.

Entregar mais detalhes da trama é estragar o prazer de descobrí-la, e o encantamento que pode surgir ao se presenciar a habilidade de Christopher Nolan de tornar suas histórias complicadas. O diretor e roteirista joga seus personagens, com seu objetivo direto de implantar uma ideia, em um labirinto imagético e narrativo. O excelente elenco, que ainda conta com Ellen Page (tomara que a pobre garota se livre da maldição de um dia ter sido Juno), Ken Watanabe, Tom Hardy e Joseph Gordon-Levitt (os dois últimos sérios candidatos a astros da nova década) passeia por camadas de sonho, e pelas páginas de um roteiro invejavelmente bem armado. E Nolan conduz sua orquestra onírica como um maestro sonâmbulo, navegando por mares loucos, evitando os escolhos que podem, muito facilmente, tornar seu filme confuso. E esse gosto pela narrativa não-linear, que marca a identidade de Nolan como autor, pode muito bem acabar por ser seu ponto fraco. Seu filme mais linear, Insônia (Insomnia, 2002), é justamente o mais fraco. Amnésia (Memento, 2000), seu primeiro sucesso, não funcionaria sem a história sendo contada de trás para a frente. As inúmeras reviravoltas do excelente Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) servem como injeções de gasolina no filme, que o mantém cada vez mais vivo, e correndo. O que seria de Nolan sem seus roteiros complicados? O diretor pode se perder em meio a suas histórias, como aconteceu com O Grande Truque (The Prestige, 2006), que se transforma, inesperadamente, em uma ficção científica. Esse filme é, por sinal, um dos que melhor nos dizem sobre a identidade tão peculiar de Nolan como diretor. A história é sobre dois ilusionistas, e essa parece também ser a ocupação do diretor: Nolan é um ilusionista. Usa de todos os truques a seu dispor, narrativos e visuais, para contar sua história, e para iludir o público, enredá-lo nas suas tramas tortuosas. Em A Origem, o espectador é convidado a penetrar no mundo dos sonhos, a fazer companhia a Lorde Morpheus, até o ponto em que não se sabe mais o que é realidade e o que é sonho. E se o sonho fosse o mundo real?

Auxiliado por bons atores, fotografia e edição extraordinárias, edição de arte inovadora, efeitos sonoros e visuais que realmente representam algo indispensável ao filme, e pela arrepiante trilha sonora de Hans Zimmer, Nolan manipula o seu público, comanda o seu show, ilude, diverte, faz suspense, drama, desperta emoções e confunde. Ou seja, faz cinema. E faz um grande cinema. A Origem foi surpreendente para muitos, e sua narrativa intrincada, ligada ao maravilhoso visual, criou uma certa onda de entusiasmo exagerado entre parte dos críticos e do público. Daqui a alguns anos saberemos se o filme é tão inovador e revolucionário. É uma experiência cinematográfica maravilhosa, pode-se dizer. Única em alguns aspectos, como no excelente clímax, que conta com uma luta inacreditável, e cortes de cena quase irreais de tão bem feitos. O que temos como certo até agora é que Christopher Nolan conseguiu outro grande sucesso, lançando atores promissores, e nos mostrando que capacidade técnica unida com um bom roteiro pode trazer resultados muito bons. Mas ainda resta o perigo de Nolan, o grande manipulador, se perder na complicação da própria trama. É a constante ameaça de que um modo fascinante de se contar histórias torne-se um vício, deixando seu autor dependente. Mas, por enquanto, somos presenteados com A Origem, um dos filmes mais espetaculares e intrigantes desse ano que se passou.

Indicações ao Oscar 2011:

Melhor Filme

Melhor Roteiro Original

Melhor Trilha Sonora

Melhor Edição de Som

Melhor Mixagem de Som

Melhor Direção de Arte

Melhor Fotografia

Melhores Efeitos Especiais

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One comment

  1. Este filme é muito bom , faz vc questionar certas verdades que queremos, ou ainda queremos que viva, no nosso ” mundo” que pode ser a comodidade ou , melhor, medo do novo.



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